O que é ressureição?
Dom Leomar Antônio Brustolin
Arcebispo de Santa Maria (RS)
O que nos é reservado para depois da morte não é objeto da empiria e da verificabilidade,
mas da fé. Do homo sapiens até hoje não há prova ou opinião unânime sobre o além-túmulo.
Entretanto, há milhares de anos o ser humano conserva uma centelha de eternidade
levando-o a acreditar que sua existência não se encerra nesta vida. Há uma miríade
de crenças e religiões que se consolidaram na história para dar sentido à vida,
apesar da morte.
Há uma numerosa população do planeta que acredita que voltamos a este mundo depois
da morte numa nova vida, isto é, numa reencarnação. Basta mencionar a tradição
oriental do Budismo, Xintoísmo e Hinduísmo, como as mais conhecidas. Também no
Ocidente está o Kardecismo e algumas tradições afro-brasileiras que acreditam na
possibilidade da reencarnação.
No respeito a cada forma de crer e esperar a vida eterna, os cristãos pensam de outra forma.
A fé cristã se alicerça totalmente na pessoa de Jesus Cristo, que é Deus e revelou
o que realmente é a vida, a morte e a eternidade por meio de sua paixão, morte e
ressurreição. Cremos, por revelação de Jesus, que o Pai preparou uma morada
eterna no Reino de Deus, e que há um prêmio para os justos e a possibilidade de
uma condenação eterna para os maus, de acordo com os critérios do Evangelho,
especialmente mencionados no juízo de Mateus 25: tive forme e me deste de comer,
estava nu e me vestiste, estava preso e me visitaste…
Tudo o que um cristão espera deriva da páscoa de Jesus, que passou pela cruz e
ressuscitou no terceiro dia. Ressurreição significa ressurgir, viver em uma plenitude
sem dor, morte ou finitude. Trata-se de uma vida qualitativamente nova, não apenas
de uma nova vida.
Já a reencarnação significa voltar a encarnar, materializar-se novamente. A doutrina
da reencarnação afirma que o espírito do falecido assumirá um novo corpo para fins
de purificação, ou seja, as sucessivas reencarnações de um espírito o fazem alcançar
a perfeição no final deste longo processo, trata-se de uma autopurificação em
busca de uma iluminação que supere as imperfeições vividas nas reencarnações
anteriores. Neste caso, para alguns, Jesus Cristo é admirado como um ser de Luz,
mas não a luz salvadora. Para os cristãos essa purificação depende totalmente da
ação salvífica de Cristo na cruz.
Os cristãos sempre rejeitaram a possibilidade de evocar os mortos ou mesmo
reencarnar. Na História da Igreja sabe dos santos que foram até martirizados por
combaterem a gnose e outras crenças que desprezavam o corpo material e
negavam a ressurreição. A Igreja, baseada na Escritura Sagrada, ensina que o
ser humano só morre uma vez, por isso, afirma que “a morte é o fim da peregrinação
terrestre do homem, do tempo de graça e de misericórdia que Deus lhe oferece para
realizar a sua vida terrestre segundo o projeto divino e para decidir o seu destino último”
(Catecismo da Igreja Católica, 1030).
Portanto, cada um deve ser fiel à sua fé, um cristão professará a ressurreição
como a principal forma de manifestar ao mundo sua esperança na vida eterna.
Um reencarnacionista o fará igualmente como expressão de sua fé.
O mais importante é não confundir as duas formas de crer, pois se trata de
aspectos distintos para cada forma de crer e esperar. A Igreja ensina que os
fiéis devem decidir fundamentalmente pela ressurreição, pois Paulo escreveu:
Ora, se se proclama que Cristo ressuscitou dentre os mortos, como podem alguns
dentre vós dizer que não há ressurreição dos mortos? Se não há ressurreição dos
mortos, então Cristo também não ressuscitou. E se Cristo não ressuscitou, vã é a
nossa pregação, e vã nossa fé (1 Cor 15,12-14).
Missionário Thomaz